A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 1 CURRÍCULO DE SUSTENTABILIDADE NA CADEIA DA PECUÁRIA CURRÍCULO DE SUSTENTABILIDADE NA CADEIA DA PECUÁRIA Denis Oliveira Violaine Laurens Flávio Quental Paulo Lima A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S i Agradecimento aos doadores do projeto O programa Transições Agroecológicas para Construir Sistemas Agrícolas e Alimentares Resilientes e Inclusivos (TRANSITIONS) é financiado pela União Europeia por meio de sua iniciativa DeSIRA e gerido pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA). Esta publicação foi produzida pelo projeto Ferramentas Digitais Inclusivas para Permitir Transições Agroecológicas Informadas sobre o Clima (ATDT) no âmbito do acordo de subvenção nº 2000003773 da Comissão Europeia. Disclaimer Os conteúdos e opiniões expressos nesta publicação não foram revisados por pares e são de inteira responsabilidade dos autores. Eles não refletem necessariamente as opiniões da União Europeia, do FIDA ou de organizações afiliadas. Contato Sadie Shelton [s.shelton@cgiar.org] Communications Officer University of Vermont, VT, USA Alliance of Bioversity & CIAT Este relatório está licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial 4.0 Internacional. © 2024 Alliance of Bioversity International & CIAT Fotografias Foto da capa: Fundação Solidaridad Contracapa: ©2016 Neil Palmer (CIAT) mailto:s.shelton@cgiar.org https://flic.kr/p/GPFQ9a A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S i i Apresentação Este currículo é fruto de um processo participativo realizado por pessoas e organizações comprometidas com a promoção da sustentabilidade na cadeia pecuária brasileira. Elaborado no contexto do Projeto Ferramentas digitais inclusivas (ATDT)1 , este documento contou com a participação direta de famílias agricultoras que residem na região compreendida entre os municípios de Novo Repartimento e Anapu, na região Sudoeste no Estado do Pará e consolida aprendizados de uma jornada de cocriação para adaptação de práticas sustentáveis para a produção pecuária na região e desenvolvimento de ferramentas digitais para disseminação de conhecimentos e experiências práticas. O Projeto Ferramentas Digitais Inclusivas (ATDT) tem como objetivo tornar tecnologias digitais acessíveis a todos, de forma a integrar resiliência e mitigação das mudanças climáticas com objetivos agroecológicos e capacitar agricultoras e agricultores para desenvolverem novas práticas. Trata-se de uma iniciativa do Programa Agroecological Transitions Program for Building Resilient and Inclusive Agricultural & Food Systems (TRANSITIONS), financiado pela União Europeia por meio de sua iniciativa DeSIRA e gerenciado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (IFAD)2 . O programa TRANSITIONS busca apoiar transições agroecológicas em larga escala, por meio do desenvolvimento e adoção de indicadores multidimensionais de desempenho de sistemas alimentares e agrícolas, ferramentas digitais inclusivas, incentivos e investimentos do setor público e privado para sistemas alimentares. O principal objetivo do Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária é compartilhar os resultados obtidos e os conhecimentos gerados por meio de um processo de cocriação, no qual produtoras e produtores contribuíram de forma ativa para adaptar práticas sustentáveis de produção ao seu contexto local. Também faz parte do propósito deste documento apresentar 1 ‘Inclusive Digital Tools (ATDT) Project’, Alliance Bioversity International - CIAT, 2024 [accessed 16 November 2024]. 2 Programme Brief: Agroecological Transitions for Building Resilient and Inclusive Agricultural and Food Systems’, IFAD, 2024 [accessed 16 November 2024]. https://alliancebioversityciat.org/projects/inclusive-digital-tools-atdt https://www.ifad.org/en/w/publications/programme-brief-agroecological-transitions-for-building-resilient-and-inclusive-agricultural-and-food-systems https://www.ifad.org/en/w/publications/programme-brief-agroecological-transitions-for-building-resilient-and-inclusive-agricultural-and-food-systems A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S i i i uma ferramenta digital desenvolvida de forma igualmente colaborativa com agricultoras, agricultores e agentes extensionistas para facilitar e ampliar a disseminação e o acesso aos conhecimentos sobre as práticas de produção para uma pecuária sustentável na Amazônia. Ao incorporar conceitos de agroecologia, cocriação e inclusão digital, este currículo propõe uma metodologia participativa que visa à adaptação e reprodução do processo em outros territórios, seja com contextos similares ou distintos. Sua proposta é fornecer um arcabouço metodológico flexível, capaz de se ajustar às diferentes características dos diversos meios rurais do Brasil. Com uma abordagem similar, a ferramenta digital aqui apresentada, o Solis, tem como objetivo engajar produtores e produtoras rurais de pequena e média escala, facilitando o acesso a informações e conhecimentos que possam aprimorar seus sistemas produtivos. De forma inovadora, essa ferramenta permite que agricultores e técnicos extensionistas participem continuamente de um processo de cogeração de conhecimentos, proporcionando-lhes a oportunidade de compartilhar suas próprias experiências e saberes. O Solis também tem a ambição e o potencial para criar uma ampla rede formada por produtores e técnicas e técnicos extensionistas, pesquisadores e acadêmicos, formuladores de políticas públicas e tomadores de decisão, organizações dos setores público e privado entre outros atores que se dedicam à promoção da sustentabilidade na produção agropecuária brasileira, priorizando o desenvolvimento dos territórios. Assim, a metodologia para conduzir processos participativos para cocriação e adaptação de práticas aliada ao uso da ferramenta digital desenvolvida no âmbito do Projeto Ferramentas Digitais Inclusivas (ATDT) oferece uma alternativa inovadora para fortalecer sistemas e programas de Assistência Técnica e Extensão Rural no Brasil. Para além da metodologia de cocriação e adaptação de práticas produtivas ao contexto local e da ferramenta digital associada à essa metodologia, o Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária apresenta também, a título de compartilhamento, os resultados obtidos a partir da aplicação dessa metodologia nos municípios de Novo Repartimento, Anapu e Pacajá no período de novembro de 2023 a novembro de 2024. Dessa forma, o currículo cumpre seu propósito de A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S i v compartilhar experiências, resultados e ferramentas com outros atores e agentes relacionados ao tema. Por fim, é importante esclarecer o que este currículo não pretende ser. Ele não se configura, de maneira alguma, como um conjunto universal de práticas que todos os produtores devem adotar. Também não tem a intenção de servir como conteúdo para sistemas de certificação ou rastreabilidade. Além disso, não se propõe a ser um guia definitivo de sustentabilidade, pois isso contradiria suas premissas fundamentais: a colaboração entre atores locais para adaptar seu conteúdo às realidades específicas de cada contexto. Assim, sua proposta de valor reside justamente no compartilhamento das premissas e princípios adotados, da metodologia utilizada, da ferramenta digital desenvolvida e dos resultados obtidos até aqui. A expectativa é que esses resultados e aprendizagens possam ser úteis e inspiradores o suficiente para serem adaptados a outros contextos e, de igual maneira, colaborar para um desenvolvimento territorial autêntico, inclusivo, eficiente e resiliente. Palavras chaves: Pecuária sustentável; Ferramentas digitais; Inclusão; Transamazônica; Transição Agroecológica; Resiliência climática, Desenvolvimento Participativo A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S v Sobre os autores Denis Oliveira, Gerente da Unidade de Soluções Digitais Brasil Violaine Laurens, Gerente da Unidade de Soluções Digitais América Latina Flávio Quental, Engenheiro Agrônomo, Consultor em Agroecologia e Assistência Técnica Paulo Lima, Gerente Programa Amazônia Teresa Hurtado, Projeto gráfico e diagramação Data da primeira publicação: dezembro de 2024 Expediente FUNDAÇÃO SOLIDARIDAD A Fundação Solidaridad é uma organização internacional da sociedade civil que atua há 15 anos no Brasil para o desenvolvimento de cadeias agropecuárias socialmente inclusivas, ambientalmente responsáveis e economicamente rentáveis. Busca acelerar a transição para uma produção inclusiva de baixo carbono, contribuindo para a segurança alimentar e climática do país e do mundo. Atualmente desenvolve com seus parceiros iniciativas de sustentabilidade nas seguintes cadeias: cacau, café, cana-de-açúcar, erva-mate, laranja, pecuária e soja. Globalmente, a Solidaridad conta com mais de meio século de atuação em mais de 40 países. Rodrigo Castro, Diretor de País Violaine Laurens, Gerente da Unidade de Soluções Digitais América Latina Denis Oliveira, Gerente da Unidade de Soluções Digitais Brasil Paulo Lima, Gerente Programa Amazônia Mariana Pereira, Gerente Qualidade e Meio Ambiente A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S v i Leonardo Dutra, Coordenador Programa Amazônia Anderson Floriano, Coordenador de Desenvolvimento Digital Stela Ramos, Coordenadora de Produtos Pedro Santos, Supervisor Técnico Elton Santos, Analista de campo A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 7 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Sumário 1. Conceitos e Premissas para a Construção do Currículo .......................................................10 1.1. Definição da agroecologia no contexto brasileiro ........................................................10 1.2. Abordagem adotada para a cocriação de práticas........................................................14 2. Cocriação de Práticas Produtivas e de Ferramentas Digitais para uma Pecuária Mais Sustentável no Estado do pará: Metodologia e Processo .................................................................................16 2.2 Identificação das necessidades técnico-produtivas prioritárias ....................................18 2.3 Treinamento prático .......................................................................................................20 3. Compartilhamento e Disseminação de Conhecimentos Gerados por Meio de Ferramenta Digital Inclusiva: a Proposta do Solis....................................................................................................25 3.1 Ferramentas digitais para acelerar a transformação da produção agropecuária.........25 3.2 Cocriação para o desenvolvimento de ferramentas digitais na prática........................27 3.3 Solis: uma nova maneira de interagir, aprender, ensinar e compartilhar ....................29 4. Resultados do processo de cocriação de práticas agroecológicas em Novo Repartimento, Pacajá e Anapú ........................................................................................................................................30 4.1 Quadro de práticas agroecológicas adaptadas ao contexto local.................................30 4.2 Fichas de Aprendizagem ................................................................................................32 4.3 Contribuições adicionais de de atores-chaves nos territórios de Novo Repartimento, Pacajá e Anapú ..................................................................................................................................................33 5. Resultados do processo de consulta para adaptação do currículo em outros territórios (Marabá e Alta Floresta) .............................................................................................................................35 5.1 Contribuições de atores chaves em Marabá - Pará .......................................................35 5.2 Contribuições de atores chaves em Alta Floresta – Mato Grosso ................................37 Considerações finais .................................................................................................................38 Anexo I: Fichas de aprendizagem para o território de Novo Repartimento, Pacajá e Anapu .39 Anexo II: Como instalar e utilizar o Solis...................................................................................51 Referências ...............................................................................................................................55 A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 8 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Lista de Abreviaturas ADEPARÁ Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Estado do Para ATDT Agroecological Transitions Inclusive Digital Tools Project ATER Assistência Técnica E Extensão Rural ATERI Assistência Técnica e Extensão Rural Inclusiva BPA Manual de Boas Práticas Agropecuárias CEDVET Centro De Diagnostico Veterinário de Novo Repartimento – PA COOPERMAR Cooperativa dos Produtores Rurais de Maracaja (Novo Repartimento - PA) DESIRA Development Smart Innovation through Research in Agriculture EMATER PARÁ Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará EMBRAPA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária FAO Food and Agriculture Organization GIPS Guia de Indicadores de Pecuária Sustentável ICV Instituto Centro de Vida IDEFLOR-BIO Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará IFAD International Fund for Agrcultural Development IFPA Instituto Federal do Pará ILPF Integração Lavoura-Pecuária-Floresta IOV Instituto Ouro Verde PA Pará PLANAPO Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 9 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária SAF's Sistemas Agroflorestais SEMEAR Secretaria Municipal de Agricultura de Novo Repartimento – PA SEMMA Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Novo Repartimento – PA SICREDI Sistema de Crédito Cooperativo SINTRAF Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar de Novo Repartimento TRANSITIONS Agroecological Transitions Program for Building Resilient and Inclusive Agricultural & Food Systems UFPA Universidade Federal do Pará UNIFESSPA Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 1 0 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária 1. Conceitos e Premissas para a Construção do Currículo 1.1. Definição da agroecologia no contexto brasileiro Um dos precursores e maiores expoentes da agroecologia e da agricultura orgânica no Brasil, o professor Manoel Baltazar Batista da Costa3, abordava a questão central do desenvolvimento de uma agricultura sustentável a partir do entendimento profundo da natureza e dos princípios que regem o funcionamento dos agroecossistemas. Os sistemas produtivos de base agroecológica são orientados pela ecologia de ecossistemas tropicais, a partir da sintonia com os fenômenos da natureza, promovendo a conservação do solo, água e biodiversidade. São sistemas regenerativos baseados na otimização da ciclagem de nutrientes, no manejo da matéria orgânica e da diversidade de espécies, privilegiando os sinergismos e interações positivas entre elas. Dessa forma, a agroecologia pode ser entendida como um segmento da agricultura que produz alimentos mais saudáveis e cuja produção protege e conserva os recursos naturais, evitando sua degradação. Em outras palavras, a agroecologia se apresenta como uma proposta de desenvolvimento rural que alia produção e conservação dos recursos naturais, promovendo a valorização e a inclusão social e produtiva das agricultoras e agricultores familiares no âmbito de uma economia mais solidária e distributiva. Enquanto alternativa para o enfrentamento da crise climática, a agroecologia, por meio da conservação e restauração florestal com fins econômicos, se configura como uma importante estratégia para a recuperação de áreas degradadas e para a adequação ambiental das propriedades. Os sistemas de produção de base agroecológica também se destacam como uma estratégia de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, podendo gerar renda para as famílias por meio do pagamento por serviços ambientais. A lógica está no pensar a propriedade a partir da diversificação e integração de atividades, do uso de técnicas de conservação de solos e da incorporação de árvores na paisagem e nos sistemas de produção. 3 Manoel Baltasar Baptista Costa, Agroecologia no Brasil: história, princípios e práticas (Expressão Popular, 2017). A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 1 1 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Assim, pode-se dizer que a agroecologia é a busca pela eficiência energética na produção agropecuária, proporcionando a manutenção de um nível alto e estável de produtividade. No âmbito institucional, talvez o marco mais importante para a consolidação da agroecologia como estratégia de desenvolvimento territorial sustentável no Brasil aconteceu em 2012, com a instituição da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica4. Um dos principais instrumentos dessa política, o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica - PLANAPO5 - foi atualizado e relançado em outubro de 20246. Em sua versão 2024 - 2027, o plano conta com seis eixos e sete objetivos: Tabela 1: Principais eixos do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica - PLANAPO Eixos Objetivos Eixo 1 - Produção Objetivo 1 – Ampliar e fortalecer a produção, manipulação e processamento de produtos orgânicos e de base agroecológica, tendo como público prioritário agricultores/as familiares, assentados/ as da reforma agrária, povos e comunidades tradicionais e suas organizações econômicas, micro e pequenos empreendimentos rurais, cooperativas e associações, considerando também os da agricultura urbana e periurbana. Eixo 2 - Uso e conservação de Recursos Naturais Objetivo 2 – Promover, ampliar e consolidar processos de acesso, uso sustentável, gestão, manejo, recomposição e conservação dos recursos naturais e ecossistemas em geral. Eixo 3 - Conhecimento Objetivo 3 – Ampliar a capacidade de construção e socialização de conhecimentos em agroecologia e sistemas orgânicos de produção, por meio da valorização da cultura local e intercâmbio. Eixo 4 - Comercialização e Consumo Objetivo 4 – Fortalecer a comercialização dos produtos orgânicos, de base agroecológica e da sociobiodiversidade nos mercados locais, regionais, nacional, internacional e nas compras públicas e promover a ampliação do consumo de tais produtos. Eixo 5 - Terra e Território Objetivo 5 – Garantir o acesso à terra e a territórios, como forma de promover o etno- desenvolvimento dos povos e comunidades tradicionais, povos indígenas, quilombolas e assentados da reforma agrária. Eixo 6 - Sociobiodiversidade Objetivo 6 – Promover o reconhecimento da identidade sociocultural, o fortalecimento da organização social e a garantia dos direitos de povos indígenas, povos e comunidades tradicionais e agricultores/as familiares. Objetivo 7 - Apoiar a produção, beneficiamento, armazenamento, distribuição e comercialização dos produtos da sociobiodiversidade e ampliar sua visibilidade e consumo. 4 ‘Decreto No 7794’, 2012 [accessed 2 December 2024]. 5 ‘PLANAPO’, Secretaria-Geral [accessed 2 December 2024]. 6 ‘Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica é lançado no Dia Mundial da Alimentação’, Agência Gov [accessed 2 December 2024]. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/decreto/d7794.htm https://www.gov.br/secretariageral/pt-br/cnapo/planapo/planapo https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202410/plano-nacional-de-agroecologia-e-producao-organica-e-lancado-no-dia-mundial-da-alimentacao https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202410/plano-nacional-de-agroecologia-e-producao-organica-e-lancado-no-dia-mundial-da-alimentacao A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 1 2 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Em escala global, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) lançou um guia para orientar a transição para sistemas alimentares e agrícolas sustentáveis: Os dez elementos da agroecologia7 é resultado de um processo multisetorial para a criação de um arcabouço teórico que pode ser adaptado aos contextos locais. Esse guia apresenta dez princípios interconectados que servem para orientar o desenho de projetos e programas de desenvolvimento sustentável, como segue: Tabela 2: Os dez elementos da agroecologia Diversificação A diversificação é fundamental para as transições agroecológicas, garantindo a segurança alimentar e a nutrição, ao mesmo tempo em que conserva, protege e valoriza os recursos naturais. Co-criação e compartilhamento de conhecimentos As inovações agropecuárias respondem melhor aos desafios locais quando são cocriadas por meio de processos participativos. Sinergias Construir sinergias melhora as funções essenciais em todo o sistema alimentar, apoiando a produção e diversos serviços ecossistêmicos. Eficiência Práticas agroecológicas inovadoras produzem mais utilizando menos recursos externos. Reciclagem Mais reciclagem significa uma produção agropecuária com menores custos econômicos e ambientais. Resiliência O fortalecimento da resiliência das pessoas, comunidades e ecossistemas é fundamental para sistemas alimentares e agrícolas sustentáveis. 7 ‘10 Elements | Agroecology Knowledge Hub | Food and Agriculture Organization of the United Nations’ [accessed 2 December 2024]. http://www.fao.org/agroecology/overview/overview10elements/en/ A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 1 3 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Valores humanos e sociais Proteger e melhorar os meios de subsistência rurais, a equidade e o bem- estar social é essencial para sistemas alimentares e agrícolas sustentáveis. Tradições culturais e alimentares Ao apoiar dietas saudáveis, diversificadas e culturalmente adequadas, a agroecologia contribui para a segurança alimentar e a nutrição, ao mesmo tempo em que mantém a saúde dos ecossistemas. Governança responsável A alimentação e agricultura sustentáveis requerem mecanismos de governança responsáveis e eficazes em diferentes escalas – do local ao nacional e ao global. Economia circular e solidária Economias circulares e solidárias que reconectam produtores e consumidores oferecem soluções inovadoras para viver dentro dos limites planetários, ao mesmo tempo em que garantem a base social para um desenvolvimento inclusivo e sustentável. Adaptado pelos autores a partir do material original disponível em https://www.fao.org/agroecology/overview/overview10elements/en/ A partir dessa visão mais ampla, a agroecologia revela atributos de multidimensionalidade, ou seja, a relação entre a dimensão política e as dimensões social, ambiental, cultural e econômica, no sentido de que uma ação ou iniciativa pode ter desdobramentos em vários níveis ou escalas: local, territorial, regional, nacional e internacional, como demonstra a figura a seguir. https://www.fao.org/agroecology/overview/overview10elements/en/ A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 1 4 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Figura 1: Dimensões da Agroecologia Autor: Flávio Quental 1.2. Abordagem adotada para a cocriação de práticas Apesar da relevância de todos os princípios constantes em Os Dez Elementos da Agroecologia e dos objetivos do PLANAPO, o princípio de cocriação do guia da FAO e o objetivo três do Plano nacional foram os norteadores mais importantes para a construção do Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária. Isso se deve, principalmente, ao fato de que o propósito fundamental deste currículo é promover a geração participativa de conhecimentos e sua disseminação. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 1 5 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária A cocriação de práticas de produção entre agricultores, técnicos extensionistas e pesquisadores tem como objetivo reunir conhecimentos e perspectivas diversas, a fim de identificar práticas de produção agropecuárias capazes de aumentar a eficiência e a resiliência do sistema produtivo e adaptá-las ao contexto local. Essa abordagem fortalece a interação entre os diversos atores envolvidos em um processo de moldagem e refinamento coletivo das técnicas mais apropriadas e necessárias à realidade do território. Fundamentada em princípios de inclusão, compartilhamento de conhecimento e respeito mútuo, a cocriação surge como um paradigma transformador, impulsionando o desenvolvimento agrícola sustentável8. 8 K.M. Dittmer and others, Principles for Socially Inclusive Digital Ools for Smallholder Farmers: A Guide. Agroecological TRANSITIONS: Inclusive Digital Tools to Enable Climateinformed Agroecological Transitions (ATDT). (Alliance of Bioversity & CIAT., 2022). A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 1 6 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária 2. Cocriação de Práticas Produtivas e de Ferramentas Digitais para uma Pecuária Mais Sustentável no Estado do pará: Metodologia e Processo O ponto de partida para a construção de Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária está fundamentado no modelo de Assistência Técnica e Extensão Rural Inclusiva (ATERI)9 da Fundação Solidaridad, que provê acompanhamento técnico continuado às famílias agricultoras, e apoia a adoção de práticas e tecnologias focadas em aumento de produtividade e da resiliência da atividade pecuária através da troca de saberes e experiências entre produtores e extensionistas. As principais práticas e tecnologias trabalhadas são a utilização de forrageiras adaptadas às condições locais, manejo da fertilidade dos solos sob pastagem, manejo nutricional das forrageira, intensificação parcial dos sistemas produtivos de pecuária com a implementação de sistema de pastejo rotacionado, suplementação alimentar e bem-estar dos animais, adequação ambiental e gestão da propriedade rural. A adoção das premissas de cocriação de práticas de produção junto a agricultores e técnicas e técnicos extensionistas não é, por si só, uma tarefa trivial. A esse desafio soma-se a necessidade de, de forma colaborativa com esses mesmos atores, desenhar uma solução digital capaz de apoiar o processo de adaptação e compartilhamento dessas práticas, ampliando a disseminação de conhecimentos sobre uma produção pecuária sustentável com verdadeira relevância local. Assim, o processo de cocriação adotado possui quatro etapas, conforme demonstra a figura abaixo e em seguida cada uma delas é detalhada em seus termos teóricos e práticos. 9 Helena Gonçalves and Paulo Lima, ‘O VAZIO DA ATER: CAMINHOS PARA A INCLUSÃO SOCIOECONÔMICA E AMBIENTAL DA AGRICULTURA FAMILIAR’, 2022, PDF. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 1 7 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Figura 2: Metodologia para cocriação e disseminação de práticas sustentáveis2.1 Criação de condições favoráveis para a cocriação Construção de relação de confiança Esse é o elemento fundamental para a obtenção de bons resultados no processo de construção colaborativa de conhecimentos. Sem o estabelecimento de uma relação de confiança com os atores envolvidos, sejam técnicos extensionistas, sejam agricultoras e agricultores, nenhum dos passos subsequentes se sustenta. É importante considerar que essa etapa pode demandar tempo e esforço significativo. Por isso, recomenda-se que processos de cocriação de práticas junto a técnicos e produtores rurais sejam implementados em regiões onde esses atores já possuam algum nível de envolvimento ou relação prévia entre si. No caso específico da região em que o Projeto Ferramentas Digitais Inclusivas (ATDT) está sendo executado — o trecho da Transamazônica entre Novo Repartimento/PA e Anapu/PA —, a Fundação Solidaridad atua há mais de dez anos, fornecendo assistência técnica a produtores de cacau e pecuaristas. Esse contexto permitiu estabelecer um ambiente de confiança mútua, parceria e espírito cooperativo entre a equipe técnica e as famílias agricultoras. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 1 8 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Dessa forma, recomenda-se considerar, como critério para identificar territórios onde se pretende conduzir um processo de cocriação de práticas produtivas sustentáveis, a presença de organizações ou pessoas que já tenham uma relação de confiança estabelecida com as famílias agricultoras e os técnicos e técnicas extensionistas do local. Engajar essas organizações ou lideranças locais pode economizar tempo e recursos, contribuindo para o sucesso na condução do processo de cocriação. Definição do referencial técnico Embora o objetivo do processo de cocriação seja a construção participativa de conhecimentos, técnicas e tecnologias produtivas de relevância local, é fundamental adotar um referencial técnico como ponto de partida. No entanto, é igualmente essencial que esse referencial técnico seja definido de forma participativa. No caso do projeto ATDT no Brasil, ele foi construído com base nas referências técnicas já utilizadas pela equipe de assistência técnica da Solidaridad na regiãoo Guia de Indicadores de Pecuária Sustentável (GIPS)10 e o Manual de Boas Práticas Agropecuárias - BPA - Bovinos de corte da EMBRAPA11. 2.2 Identificação das necessidades técnico-produtivas prioritárias Oficinas de cocriação Esse passo é crucial para o estabelecimento de duas premissas fundamentais no processo de cocriação de práticas agroecológicas: (i) a conexão e o engajamento de agentes extensionistas locais e de famílias agricultoras; e (ii) a identificação das necessidades técnico-produtivas que os atores locais consideram prioritárias. Sem um engajamento efetivo das pessoas e uma priorização alinhada às demandas locais, a adaptação das práticas e a geração participativa de conhecimentos tornam-se inviáveis. Para alcançar esses objetivos, recomenda-se a realização de oficinas de cocriação entre agentes extensionistas e agricultores e agricultoras. Essas oficinas devem adotar metodologias participativas que 10 ‘GIPS - Guia de Indicadores de Pecuária Sustentável’ [accessed 2 December 2024]. 11 Ezequiel Rodrigues do Valle, Boas práticas agropecuárias: bovinos de corte (Embrapa Gado De Corte, 2010). https://gips.org.br/ A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 1 9 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária proporcionem um ambiente confortável e seguro, onde os participantes se sintam à vontade para compartilhar suas ideias e perspectivas sobre os temas propostos. No âmbito do Projeto Ferramentas Digitais Inclusivas, foram realizadas oficinas com os técnicos da equipe da própria Solidaridad e com mais de 90 produtores e produtoras rurais para se levantar todas as necessidades em relação à atividade produtiva, à gestão administrativa e financeira da propriedade, à comercialização e à importância de iniciar a transição para um modelo produtivo mais eficiente e resiliente às mudanças climáticas. Essas oficinas também desempenharam um papel importante na identificação do grau de maturidade digital dos participantes, permitindo uma avaliação mais ampla do nível de maturidade digital do território. Entre os aspectos levantados, destacaram-se o nível de acesso à internet e a smartphones, os tipos de ferramentas — aplicativos e serviços digitais — mais comumente utilizados e os fins para os quais são empregados. Além disso, foram coletadas ideias e sugestões sobre que tipos de ferramentas digitais poderiam ser mais úteis para atender às demandas técnico-produtivas apontadas pelos próprios produtores e produtoras participantes das oficinas de cocriação. Avaliação das condições de acessibilidade digital do território A promoção da inclusão digital de agricultores familiares para a disseminação de práticas produtivas mais sustentáveis exige condições mínimas de maturidade digital no território. Sem essas condições, o investimento de recursos, esforços e tempo tende a ser infrutífero Desde 2012, a Fundação Solidaridad investe no desenvolvimento de soluções digitais para aumentar e acelerar o impacto de seus programas de assistência técnica e extensão rural (ATER) e de fortalecimento de cadeias de valor de diferentes culturas de alta importância para o Brasil, como pecuária, cacau, cana- de-açúcar, café, chá, laranja e soja. As ferramentas digitais desenvolvidas pela Solidaridad otimizam programas de ATER, seja no campo, na coordenação das atividades ou no planejamento estratégico. No campo, os aplicativos da Solidaridad economizam o tempo dos técnicos em tarefas administrativas e facilitam sua interação com produtores e produtoras, automatizando a coleta e o processamento de dados de diagnósticos socioeconômicos e produtivos. Além disso, essas ferramentas promovem a aprendizagem de melhores práticas por meio da geração automatizada de recomendações técnicas A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 2 0 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária personalizadas. A inteligência gerada a partir dos dados coletados em campo também apoia agentes extensionistas, gerentes e coordenadores e coordenadoras de projetos na tomada de decisões táticas e estratégicas. Com base em mais de dez anos de experiência no desenvolvimento de soluções digitais para apoiar programas de ATER, observa-se que o primeiro passo para desenvolver ou ampliar a adoção de ferramentas digitais por produtores rurais é avaliar a infraestrutura digital disponível e os fatores que influenciam o uso da tecnologia no território. Entre esses fatores, destacam-se a qualidade do sinal de internet, os tipos de dispositivos utilizados por agricultores e agricultoras, além de sua familiaridade com smartphones e aplicativos. Dessa forma, é fundamental que, para a reprodução da metodologia proposta neste Currículo, o território conte com a disponibilidade de sinal de internet, ainda que apenas em alguns pontos da comunidade, como escolas, igrejas ou estabelecimentos comerciais. Quanto aos técnicos e produtores rurais, é necessário que eles possuam smartphones (mesmo que sejam os mais simples) e tenham afinidade de uso ao menos do Whatsapp, sendo desejável que façam uso das redes sociais mais comuns, como Facebook, Instagram, Tik Tok ou Youtube. 2.3 Treinamento prático Dias de campo A realização de dias de campo envolvendo famílias agricultoras e técnicos extensionistas constitui uma poderosa ferramenta metodológica, proporcionando o encontro de diferentes saberes e a ressignificação de ideias e percepções. Isso possibilita a construção do conhecimento e sua aplicação prática com base na realidade vivenciada pelos participantes. É altamente recomendável que esses dias de campo ocorram na propriedade de um dos produtores ou produtoras envolvidos no processo de cocriação. Uma alternativa igualmente eficaz é realizá-los em unidades demonstrativas que já apresentem bons resultados a partir da adoção de práticas produtivas mais sustentáveis. De qualquer forma, é essencial que os participantes tenham a oportunidade de interagir presencialmente com seus pares e facilitadores, discutindo os benefícios e vantagens da A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 2 1 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária adoção das práticas a serem disseminadas. Além disso, é importante que sejam incentivados a contribuir com ideias e sugestões sobre como essas práticas podem ser adaptadas à sua realidade. As premissas do Projeto Ferramentas Digitais Inclusivas estão alinhadas à Abordagem Temática Freireana, que promove a troca de experiências e aprendizados de forma participativa entre agricultores. Essa abordagem valoriza o diálogo e a problematização da realidade dos agricultores, utilizando temas geradores — assuntos centrais que impulsionam novas investigações e aprofundamentos — como base para as discussões. Cada tema gerador marca o início de um novo ciclo de aprendizagem, originado das necessidades dos produtores e agentes de extensão, onde o conhecimento é aplicado na prática e seus resultados transformam a realidade. Esse processo é contínuo, com novos temas surgindo à medida que outros são esgotados. A adaptação do conteúdo técnico em atividades práticas e em uma linguagem acessível ao público-alvo deve seguir essa lógica, desdobrando os temas geradores em práticas aplicáveis no campo e coerentes com a realidade local. A participação ativa dos agricultores nesse processo aumenta o engajamento e estabelece uma relação de igualdade, onde todos compartilham e aprendem conhecimentos, eliminando a ideia de transmissão unilateral de saberes. Dessa forma, foram realizados dois encontros para discutir práticas para uma pecuária mais sustentável no território. Os encontros foram estruturados em quatro partes: (i) o primeiro momento teve como objetivo definir os temas geradores que o grupo gostaria de abordar durante o dia de campo; (ii) com os temas geradores prioritários definidos, passou-se para o detalhamento desses temas em práticas, com uma visita às áreas produtivas para que produtores e técnicos pudessem compartilhar dúvidas e experiências próprias sobre as práticas discutidas, além de sugerir adaptações às suas realidades; (iii) validação das adaptações propostas pelo grupo; e (iv) finalmente, o grupo apontou seis novos temas geradores que poderão orientar as atividades de assistência técnica a partir de então. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 2 2 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Capacitação em produção de conteúdos audiovisuais Esta fase é a iniciativa mais inovadora do processo de cocriação para a geração e disseminação de conhecimentos técnicos adaptados ao contexto local. A proposta é simples e se baseia na atratividade que a produção de conteúdos audiovisuais e o compartilhamento de experiências têm sobre todos nós, especialmente sobre as novas gerações. Além disso, essa atividade teve como foco principal jovens e mulheres, tanto pela prerrogativa de inclusão social quanto pelo maior interesse e destreza desse público em relação ao tema. No contexto do Projeto Ferramentas Digitais Inclusivas, foram realizadas duas atividades relacionadas à capacitação para a produção de conteúdos digitais. A primeira ocorreu no próprio território e teve como objetivo apresentar o Solis ao público mais jovem da região dos municípios envolvidos no projeto. Cerca de 40 jovens participaram, passando o dia discutindo os potenciais benefícios, riscos e cuidados ao utilizar, compartilhar e, principalmente, se expor em redes sociais. Eles também receberam um treinamento sobre os primeiros passos na produção de vídeos para as diversas plataformas atuais e, ao final, fizeram uma autoavaliação sobre o que aprenderam e sobre seu grau de afinidade com a produção de conteúdos audiovisuais. Com base nessa avaliação, 5 jovens produtores e dois agentes extensionistas foram selecionados para participar de uma capacitação mais aprofundada sobre técnicas e ferramentas para produção de vídeos, além de conceitos e práticas agroecológicas. Esse grupo passou uma semana de imersão na cidade de São Paulo, onde tiveram a oportunidade de aprender na prática, produzindo vídeos sobre práticas de produção, aprendizados em agroecologia e sobre suas realidades de forma geral. Sistematização de conhecimentos A sistematização do conteúdo resultante do processo de cocriação é essencial para consolidar o conhecimento gerado e possibilitar sua disseminação. Quando realizada de forma coparticipativa, a sistematização pode ser vista, por si só, como um processo de aprendizado que busca superar as hierarquias tradicionais entre diferentes tipos de conhecimento, criando um ambiente onde todos os participantes têm a oportunidade de contribuir igualmente para a construção do saber. A sistematização não se limita a registrar as experiências; ela também facilita uma análise crítica do grupo, permitindo a A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 2 3 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária extração de lições valiosas que podem ser compartilhadas com um público mais amplo, seja por meio de atividades presenciais, como novos treinamentos, seja por canais digitais, como a produção de conteúdos audiovisuais que podem ser disponibilizados e compartilhados em sites e aplicativos, entre outros. Dessa forma, os conhecimentos co-criados ao longo dos dias de campo foram consolidados e sistematizados em dois quadros informativos: ▪ O primeiro, denominado "Quadro de práticas agroecológicas adaptadas ao contexto local", é produto das atividades (i), (ii) e (iii) mencionadas na seção anterior e sistematiza os temas geradores, bem como o detalhamento das práticas discutidas durante os dias de campo. Essas práticas são, em última instância, as adaptadas ao contexto local, expressas em uma linguagem acessível aos produtores e extensionistas da região. ▪ O segundo produto são as "Fichas de aprendizagem". Elas foram elaboradas com base nos temas geradores prioritários definidos pelos próprios produtores, produtoras e agentes extensionistas participantes das atividades de campo. Esse material é resultado da atividade (iv) mencionada na seção anterior e propõe metodologias para conduzir novas sessões de cocriação, adaptando esses conteúdos ao contexto local. Em outras palavras, trata-se de uma proposta de "agenda de extensão", comparável às agendas de pesquisa comumente apresentadas em trabalhos acadêmicos. A estrutura da Ficha de aprendizagem se configura como uma ferramenta simples e objetiva, que pode ser adotada por agentes extensionistas e facilitadores de diálogos com comunidades de agricultores, para preparar e executar encontros e processos de cocriação voltados à adaptação de conteúdos técnicos e à geração de conhecimentos. A estrutura da Ficha de Aprendizagem elaborada para o Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária pode ser visualizada abaixo. O Quadro de práticas agroecológicas adaptadas ao contexto local está apresentado no capítulo ‘Cocriação de Práticas Agroecológicas em Novo Repartimento, Pacajá e Anapu’. As Fichas de aprendizagem elaboradas a partir dos temas geradores definidos como prioritários pelos participantes das atividades de campo estão no Anexo I deste currículo A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 2 4 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Figura 3: Modelo de Ficha de Aprendizagem TEMA GERADOR: INDICAR O TEMA GERADOR Breve introdução do tema gerador. Neste espaço recomenda-se apresentar uma definição conceitual do tema, sendo essa definição preferencialmente de cunho científico e/ou reconhecida e validada socialmente ou por setores relevantes da sociedade. BENEFÍCIOS: ATIVIDADE DE ENSINO-APRENDIZAGM: IDENTIFICAÇÃO DA ATIVIDADE Local: Local Materiais: Materiais Tempo de duração: tempo Método: Descrever sucintamente a metodologia apropriada para a atividade de ensino-aprendizagem Como: Descrever as atividades a serem realizadas durante a atividade. Perguntas de estímulo: ▪ Elencar questões para provocar o debate Bora aprender mais? Indicar referências técnicas (preferencialmente em formato de vídeos) para dar sequência ao processo contínuo de ensino-aprendizagem * Os benefícios indicados neste modelo são sugestões baseadas nas experiências em Novo Repartimento, Pacajá e Anapu e devem ser igualmente adaptados à realidade específica de cada território e ao contexto de cada projeto A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 2 5 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária 3. Compartilhamento e Disseminação de Conhecimentos Gerados por Meio de Ferramenta Digital Inclusiva: a Proposta do Solis 3.1 Ferramentas digitais para acelerar a transformação da produção agropecuária A adoção de tecnologias digitais como instrumentos de aceleração da transição para sistemas mais sustentáveis de produção de alimentos, fibras e bioenergia é tema recorrente em discussões acadêmicas, entre formuladores de políticas públicas e atores envolvidos com a agenda de desenvolvimento sustentável de zonas rurais, especialmente no que se refere aos sistemas ATER no Brasil. Uma das hipóteses mais latentes é a de que tais tecnologias podem reduzir significativamente os custos de transmissão e disseminação de informações e conhecimentos, o que por sua vez, poderia contribuir para que produtoras e produtores rurais, principalmente aqueles que se encontram em condições de baixa produtividade e rentabilidade e alta vulnerabilidade às mudanças climáticas possam transformar suas realidades, obtendo maior retorno sobre suas atividades produtivas e aumentando a resiliência quanto aos desafios ambientais que poderão enfrentar em um futuro próximo.12 Apesar da expansão da cobertura de internet e do aumento no acesso a smartphones, a adoção em larga escala das soluções digitais por agricultores e agricultoras de baixa renda enfrenta desafios em duas dimensões: barreiras técnicas e desigualdades socioeconômicas. As áreas rurais ainda enfrentam mais dificuldades técnicas do que os centros urbanos e, mesmo com o avanço da cobertura, os residentes de zonas rurais frequentemente lidam com conectividade de baixa qualidade. No âmbito socioeconômico, questões como o baixo nível de escolaridade e as limitações financeiras dificultam o acesso a tecnologias mais avançadas. Além disso, há a questão geracional: os mais jovens, que tendem a ter maior afinidade com dispositivos e aplicativos, frequentemente migram para os centros urbanos, deixando de lado as atividades agropecuárias. Por outro lado, as pessoas mais experientes, que permanecem no campo, enfrentam 12 Véronique Bellon-Maurel and others, ‘Digital Revolution for the Agroecological Transition of Food Systems: A Responsible Research and Innovation Perspective’, Agricultural Systems, 203 (2022), p. 103524, doi:10.1016/j.agsy.2022.103524. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 2 6 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária dificuldades de usabilidade, já que, em geral, não são o público-alvo de organizações que desenvolvem softwares e aplicativos. Como resultado, muitas vezes não são incluídas em pesquisas de usabilidade e satisfação de usuários realizadas por essas organizações.13 A obsolescência programada constitui uma barreira que transita entre os obstáculos técnicos e as questões socioeconômicas, pois a constante evolução das tecnologias, softwares e aplicativos faz com que os dispositivos se tornem obsoletos rapidamente. Isso contribui para a exclusão de famílias agricultoras de baixa renda, que não conseguem adquirir novos aparelhos e permanecem com dispositivos móveis que frequentemente apresentam limitações técnicas e funcionais. Outro ponto a ser considerado é que muitas ferramentas digitais são projetadas para atender às demandas da agropecuária em escala industrial. Por isso, geralmente seguem uma lógica de padronização que visa aumentar a eficiência e a uniformidade dos sistemas produtivos, subestimando a complexidade dos ecossistemas locais, a autonomia e o conhecimento local, que inclui saberes tradicionais dos agricultores. Esse modelo tecnológico entra em conflito com os princípios da agroecologia, que valorizam a diversidade ecológica e a adaptabilidade local – elementos essenciais para uma agricultura sustentável e centrada no ser humano. Dessa forma, a abordagem de cocriação é uma premissa fundamental para o uso de tecnologias digitais em contextos de produção agroecológica. Ela torna o processo de desenvolvimento mais inclusivo e participativo, aumentando o nível de engajamento dos agricultores. Ao deixarem de ser meros usuários, eles passam a assumir o protagonismo no desenvolvimento de ferramentas digitais que apoiem a transição para modelos produtivos mais sustentáveis e alinhados aos preceitos da agroecologia. Isso legitima o conhecimento local e favorece a compreensão das práticas sustentáveis como uma resposta direta às necessidades e desafios enfrentados no campo.14 13 Elisabeth Simelton and Mariette McCampbell, ‘Do Digital Climate Services for Farmers Encourage Resilient Farming Practices? P inpointing Gaps through the Responsible Research and Innovation Framework’, Agriculture, 11.10 (2021), p. 953, doi:10.3390/agriculture11100953. 14 Alisha Utter and others, ‘Co-Creation of Knowledge in Agroecology’, Elementa: Science of the Anthropocene, 9.1 (2021), p. 00026, doi:10.1525/elementa.2021.00026. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 2 7 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária 3.2 Cocriação para o desenvolvimento de ferramentas digitais na prática Como mencionado anterirmente, foram realizadas oficinas de cocriação com técnicos extensionistas e produtores rurais para identificar as necessidades técnico-produtivas prioritárias, bem como o grau de maturidade digital do território. A partir desse processo, foi identificado que a maioria das famílias possui acesso a smartphones e utiliza o WhatsApp para comunicação diária. Embora a cobertura de internet móvel seja limitada, a maioria das famílias também tem acesso estável à internet por meio de tecnologia de satélite. Além disso, observou-se que os produtores mais jovens são adeptos de plataformas e redes sociais como TikTok, Instagram, Kwai e YouTube. Embora o uso principal desses serviços digitais seja para entretenimento, foi alta a incidência de relatos sobre a busca por conteúdos e informações relacionadas a atividades produtivas, mesmo entre as pessoas de idade mais avançada. Com base nesse diagnóstico, a Unidade de Soluções Digitais da Fundação Solidaridad procurou desenvolver uma ferramenta pautada nas seguintes premissas técnicas: ▪ A ferramenta deveria facilitar o acesso à conteúdos em formato audiovisual e proporcionar a oportunidade de que os próprios usuários pudessem criar e compartilhar conteúdos; ▪ A ferramenta deveria emular a experiência de usuário das redes sociais mais populares entre os produtores e produtoras da região. Essa estratégia visa facilitar o acesso das pessoas que têm alguma dificuldade em adotar uma ferramenta digital específica, mas já está familiarizado com o uso dessas redes; ▪ A ferramenta deveria ter um fluxo simplificado para criação de contas de usuário e ser disponibilizadas por vias alternativas além das lojas de aplicativos, pois muitos produtores com mais idade demonstraram dificuldade em acessar essas lojas, baixar e instalar os aplicativos em seus telefones. Assim, a ferramenta, que como aplicativos convencionais está disponível na loja de aplicativos do Google, também pode ser disponibilizada via link por Whatsapp ou por QR codes distribuídos em folders e peças de comunicação. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 2 8 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Além das premissas técnicas, todo o trabalho de desenvolvimento do Solis foi norteado pelo Guia de Princípios para Ferramentas Digitais Socialmente Inclusivas para Pequenos Produtores Rurais15 . Esses princípios foram incorporados ao processo de desenvolvimento da seguinte forma: Tabela 3: Resumo dos Princípios para Ferramentas Digitais Socialmente Inclusivas para Pequenos Produtores Rurai Princípios Como foi incorporado ao desenvolvimento do Solis Princípio 1 - Engajar produtores diversos Durante as oficinas de cocriação, os produtores foram separados em grupos de acordo com o seu perfil para facilitar as discussões. Dessa forma, os mais de 90 produtores e produtoras foram divididos em 4 grupos: (i) produtores mais experientes e mais engajados no programa de ATER da Solidaridad; (ii) produtoras; (iii) produtores e produtoras mais jovens; (iv) produtores e produtoras de cacau orgânico. Princípio 2 - Facilitar o acesso às tecnologias desenvolvidas As premissas técnicas adotadas, tais como acesso facilitado ao aplicativo, criação de conta de usuário simplificada e emulação da experiência de uso de redes sociais se enquadram nesse princípio. Além disso, o modelo de negócios do Solis prevê a disponibilização sem custos para os usuários. Além disso, um grupo de 5 jovens produtores e produtoras foi selecionado para uma capacitação intensiva em criação de conteúdos audiovisuais, cuidados e responsabilidades no uso de redes sociais e princípios de agroecologia. Essa iniciativa tem por objetivo criar capacidade local para apoiar a facilitação da adoção da tecnologia desenvolvida para o projeto. Princípio 3 - Cocriar práticas agrícolas digitais em parceria com o agricultor Esse princípio foi plenamente atendido pelas diversas atividades de cocriação realizadas ao longo do projeto. Princípio 4 - Usar a tecnologia de maneira apropriada A premissa de que o Solis precisa ser o mais simples possível para funcionar bem nos contextos sociocultural e de infraestrutura digital atende a esse princípio. Além disso, o aplicativo adiciona valor ao oferecer um canal específico para centralização de conteúdos de relevância local e prover a oportunidade a agricultores, agricultoras e agentes extensionistas de criar e compartilhar conteúdos com a comunidade. Princípio 5 - Usar os dados dos agricultores de forma responsável Os dados solicitados atualmente são: o nome completo e o número de telefone celular. Esses dados são mantidos na base de dados da Fundação Solidaridad e servem apenas para viabilizar a criação da conta. Ressaltamos que foram adotadas práticas de segurança cibernética aplicáveis no processo de desenvolvimento e a plataforma digital se encontra em consonância com a LGPD. Princípio 6 - Desenvolver Soluções de forma responsável O Solis foi desenvolvido a partir da plataforma pré-existente da Solidaridad e tem em sua proposta de valor mais fundamental, prover acesso à informações que possam apoiar os produtores e produtoras tomarem melhores decisões quanto à suas atividades produtivas. 15 Dittmer and others, Principles for Socially Inclusive Digital Ools for Smallholder Farmers: A Guide. Agroecological TRANSITIONS: Inclusive Digital Tools to Enable Climateinformed Agroecological Transitions (AT Dittmer, K.M.; Burns, S.; Shelton, S.; Wollenberg, E. (2024) Principles for socially inclusive digital tools for smallholder farmers: A guide. Version 2. Agroecological Transitions programme: Inclusive Digital Tools to Enable Climate-informed Agroecological Transitions (ATDT). Cali (Colombia): Bioversity International and the International Center for Tropical Agriculture (CIAT). 22 p. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 2 9 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária 3.3 Solis: uma nova maneira de interagir, aprender, ensinar e compartilhar O Solis é o resultado do processo de cocriação descrito anteriormente e tem como objetivo, inicialmente, facilitar a conexão entre agentes extensionistas, agricultores e agricultoras, promovendo o compartilhamento de conhecimentos e experiências por meio da dinâmica das redes sociais. Com uma interface de navegação simples e intuitiva, o Solis permite que os usuários publiquem vídeos – sejam eles produzidos por eles mesmos ou compartilhados de outras redes sociais – sobre técnicas, experiências e conhecimentos relacionados à produção agropecuária, criando assim um ambiente interativo para a geração e disseminação de saberes locais. Como um aplicativo aberto e disponível para qualquer usuário do sistema operacional Android, o Solis também pode ser acessado por outros atores interessados na troca de conhecimentos e técnicas para uma produção agropecuária mais sustentável. Dessa forma, o Solis se configura como uma ferramenta potencial para promover a troca contínua de informações entre pequenos produtores, pesquisadores, formuladores de políticas públicas, tomadores de decisão, agentes do mercado e técnicos extensionistas, todos comprometidos com o desenvolvimento rural por meio de um modelo produtivo mais rentável, resiliente e inclusivo. O processo e o passo a passo para instalar e utilizar o Solis estão detalhados no Anexo II. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 3 0 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária 4. Resultados do processo de cocriação de práticas agroecológicas em Novo Repartimento, Pacajá e Anapú 4.1 Quadro de práticas agroecológicas adaptadas ao contexto local O processo de identificação das demandas técnico-produtivas, realizado em colaboração com os técnicos agrícolas e as famílias agricultoras, resultou em quatro temas geradores prioritários. Esses temas foram desdobrados em práticas adaptadas ao contexto local durante as atividades dos dias de campo. A seguir, apresentam-se, em detalhes, cada uma dessas práticas, já com seu conteúdo e formato ajustados. Tema gerador: Diversificação e integração de atividades Práticas Detalhamento adaptado ao contexto local Cultivo diversificado de espécies vegetais Uma enorme diversidade de espécies vegetais é cultivada tradicionalmente na Amazônia, incluindo frutos, tubérculos, grãos, ervas, temperos, fibras, óleos, plantas medicinais e ornamentais, manejadas com base nos conhecimentos adquiridos ao longo de mais de 3 mil anos de experiências acumuladas pelas populações locais no uso dos recursos naturais da região. Integração lavoura- pecuária A agricultura familiar amazônica depende dessa diversidade de cultivos para sua sobrevivência, incluindo a integração da criação de animais nas propriedades rurais. Essa diversidade proporciona a diversificação das fontes de renda, por meio do escalonamento das colheitas, e possibilita uma melhor distribuição do trabalho familiar ao longo do ano. Dessa forma, a diversidade de cultivos aumenta a resiliência frente às variações de mercado, além de ser a principal estratégia para garantir a segurança e a soberania alimentar. Rotação de culturas A diversificação também pode ocorrer dentro de uma mesma área da propriedade, por meio da rotação de culturas, da adoção de policultivos, como as hortas, ou até mesmo de consórcios de espécies. Essas práticas ajudam a reduzir problemas com pragas, doenças e plantas daninhas, além de otimizar o uso do espaço e explorar as relações positivas entre as plantas, como ocorre no plantio conjunto de milho e feijão, por exemplo. Cultivos semiperenes A sustentabilidade dos sistemas de produção familiar também envolve os cultivos semiperenes, que produzem por vários anos sem necessidade de replantio, como banana, abacaxi, mamão, pimentas, cará e taioba. Além disso, inclui os cultivos perenes, como as árvores frutíferas, que produzem ao longo de muitos anos, destacando-se espécies como cacau, açaí, café, guaraná, entre outras. Implantação de sistemas agroflorestais Os Sistemas Agroflorestais (SAFs), também conhecidos como agroflorestas, são exemplos de diversificação de cultivos em uma mesma área, caracterizados pelo consórcio de espécies agrícolas, como abóbora, feijão, mandioca e banana, com espécies frutíferas voltadas à comercialização, como o cacau, além de árvores nativas, como andiroba, taperebá, castanha e cedro. Outra importante modalidade de SAF são os quintais agroflorestais, cultivados próximos às residências, que incluem uma grande diversidade de ervas, arbustos, árvores e a criação de animais, como galinhas, patos e abelhas nativas sem ferrão. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 3 1 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Plantio consorciado de gramíneas e leguminosas em pastos Na pecuária bovina de corte ou de leite, os pastos formados exclusivamente por gramíneas podem ser consorciados com espécies leguminosas, como o amendoim forrageiro, a moringa e a gliricídia, proporcionando dois importantes benefícios para o sistema de produção: o ganho em fertilidade do solo através da fixação biológica de nitrogênio, e a oferta de uma dieta mais rica em proteínas, aumentando o ganho de peso dos animais. Cultivo de capineiras para a suplementação alimentar do rebanho A diversificação na atividade pecuária também ocorre com o cultivo de capineiras para a suplementação alimentar do rebanho, assim como através da introdução ou manejo de árvores na pastagem e do uso de cercas vivas e cortinas quebra vento. Uso do esterco bovino para adubação A utilização do esterco bovino na adubação de culturas presentes na propriedade, como hortaliças, cacau e pastagens, seja na forma sólida (curtido) ou por meio de fertirrigação, é um exemplo de integração de atividades e aproveitamento mais racional dos recursos locais, contribuindo para a redução dos custos com a compra de insumos químicos. Tema gerador: Manejo de pastagens Práticas Detalhamento adaptado ao contexto local Uso de espécies forrageiras adaptadas às condições climáticas locais As boas práticas de manejo das pastagens começam com o uso de espécies forrageiras adaptadas à região e à situação ambiental na qual são introduzidas. Na região do projeto, a Brachiaria brizantha cultivares Xaraés e Brizantão, e o Panicum maximum cultivares Mombaça e BRS Zuri, apresentam ótimo desempenho, com grande produção de biomassa e alta capacidade de rebrote. Pastejo rotacionado O pastejo rotacionado é a boa prática mais consolidada na região, proporcionando maior produtividade, melhor aproveitamento da pastagem e, consequentemente, diminuição no tempo de abate. A prática adotada proporciona um ganho de peso de até 900g por dia, com lotação animal entre 2,5 e 3,15, podendo chegar em algumas propriedades a 5,0 Unidades Animais por hectare combinando genética, manejo de pastagens, suplementação e bem estar animal, muito acima da média da região. As pastagens são divididas em piquetes utilizando cerca elétrica com funcionamento a partir de energia solar (Figura 2). O ciclo de rotação é definido em função da lotação animal utilizada e da capacidade de regeneração da pastagem. Adubação de pastagens A adubação das pastagens também é uma boa prática adotada por algumas famílias do projeto, principalmente na sua etapa de formação. Neste sentido, a substituição de adubos químicos sintéticos pela adubação orgânica das pastagens é uma alternativa que pode diminuir custos e trazer maior sustentabilidade à atividade. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 3 2 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Tema gerador: Bem-estar animal Práticas Detalhamento adaptado ao contexto local Corredores de conexão entre piquetes e áreas de lazer A utilização de corredores ligando os piquetes a uma área de lazer, com sombra, água de qualidade e suplementação alimentar no cocho, trazem significativos ganhos em bem-estar animal, proporcionando maior produtividade e rentabilidade aos sistemas de produção. Evitar causar stress no animal O não uso de arame farpado nas cercas ou qualquer objeto pontiagudo no manejo dos animais também são importantes práticas incorporadas pelos produtores, assim como a separação em lotes para comercialização e o transporte evitando stress aos animais. Tema gerador: suplementação alimentar Práticas Detalhamento adaptado ao contexto local Oferta de sal mineral aos animais A suplementação alimentar do rebanho é realizada através da oferta de sal mineral nos cochos localizados nas áreas de lazer, prática que auxilia no equilíbrio do organismo dos animais, melhorando a digestão da forragem e a absorção de nutrientes. 4.2 Fichas de Aprendizagem Em alinhamento com a teoria de ensino-aprendizagem que embasa a elaboração deste currículo, parte das atividades dos dias de campo consistiu em debater e planejar, junto aos produtores e produtoras presentes, os temas prioritários que devem dar continuidade ao processo de adaptação de práticas sustentáveis ao contexto local. Essa estratégia, que funciona como uma espécie de “lição de casa” para a equipe de técnicos e para as famílias produtoras envolvidas, está em sintonia com o conceito de melhoria contínua no campo, servindo como plataforma para o início de um novo ciclo de aprendizagem, tanto individual quanto coletiva. O quadro a seguir consolida os temas geradores identificados como prioritários pelos participantes dos dias de campo: Área Tema Resultados esperados Atividade pedagógica Boas Práticas na Pecuária Boas Práticas na Pecuária qualidade na gestão controle e monitoramento Ficha de Aprendizagem 01 Manejo de solos tropicais Conservação de solos aumento da produtividade aumento na renda familiar Ficha de Aprendizagem 02 Manejo de pastagens Leguminosas na pastagem maior ganho de peso aumento da produtividade Ficha de Aprendizagem 03 A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 3 3 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Suplementação Alimentar Silagem maior ganho de peso aumento da produtividade Ficha de Aprendizagem 04 Diversificação/Integração Sistemas Silvipastoris maior conforto animal aumento da produtividade Ficha de Aprendizagem 05 Gestão Ambiental Legislação ambiental adequação ambiental da propriedade Ficha de Aprendizagem 06 As Fichas de Aprendizagens relacionadas aos temas geradores identificados pelos produtores e produtoras que participaram da atividade de campo são apresentadas no anexo I. 4.3 Contribuições adicionais de de atores-chaves nos territórios de Novo Repartimento, Pacajá e Anapú Os resultados do processo de cocriação, incluindo o Quadro de práticas agroecológicas adaptadas ao contexto local e as Fichas de aprendizagem, foram apresentados para um grupo de atores desempenhando um papel relevante na cadeia da agropecuária nos territórios de Novo Repartimento, Pacajá e Anapu. A consulta foi realizada por meio de uma oficina, realizada em 4 de novembro de 2024, que reuniu representantes de duas universidades federais (UFPA e UNIFESSPA), uma escola técnica agropecuária, as secretarias municipais de Agricultura e Meio Ambiente (SEMMA) e de Agricultura (SEMEAR), funcionários da EMATER – Novo Repartimento (empresa pública municipal de assistência técnica e extensão rural) e da ADEPARÁ (Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Estado do Pará), além de representantes do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar de Novo Repartimento (SINTRAF), da Cooperativa dos Produtores Rurais de Maracajá (COOPERMAR) e do setor privado, representado pelo Centro de Diagnóstico Veterinário (CEDVET) e pela SICREDI, uma cooperativa de crédito. O objetivo da oficina foi duplo: (i) avaliar, sob a perspectiva desses atores, a relevância das práticas agroecológicas adaptadas e da ferramenta digital coparticipativa para apoiar o desenvolvimento sustentável local; e (ii) coletar sugestões de novas práticas e funcionalidades para tornar ambos os produtos mais robustos e eficazes. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 3 4 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária As práticas produtivas adicionais sugeridas pelos participantes, detalhadas a seguir, oferecem insights valiosos para ajustar o Currículo de Sustentabilidade da Pecuária às necessidades e condições específicas dos territórios consultados, ampliando seu potencial como ferramenta de desenvolvimento sustentável. Área Práticas sugeridas pelos atores locais em Novo Repartimento Manejo de pastagens ▪ Realizar análise, correção e adubação do solo para melhoria de pastagens. ▪ Implementar sistemas de irrigação para pastagens ▪ Adotar adubação orgânica e uso de esterco de aves, ovinos e caprinos. Saúde e bem-estar animal ▪ Prover sombreamento adequado (natural ou artificial) em áreas de pastagem, lazer animal e praças de alimentação ▪ Garantir qualidade da água no curral e nos bebedouros. ▪ Garantir taxa de lotação adequada. ▪ Monitorar fitossanidade e saúde animal, incluindo vacinação e controle de doenças. ▪ Adotar confinamento e semiconfinamento. Diversificação/Integração ▪ Promover diversificação e integração de atividades agropecuárias. Insumos e Equipamentos ▪ Uso racional de agrotóxicos. ▪ Intensificar o uso de equipamentos agrícolas. Além das práticas produtivas, o grupo sugeriu ações mais amplas voltadas ao fortalecimento do setor como um todo: ▪ Realizar pesquisas sobre integração floresta-pastagem; ▪ Desenvolver programas de melhoramento genético; ▪ Promover rastreabilidade; ▪ Apoiar a instalação de agroindústrias locais; ▪ Apoiar programas voltados ao desenvolvimento de cadeias da sociobiodiversidade. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 3 5 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária 5. Resultados do processo de consulta para adaptação do currículo em outros territórios (Marabá e Alta Floresta) Além dos atores-chave dos territórios onde o projeto Ferramentas Digitais Inclusivas foi implementado, também foram consultados representantes de outros dois territórios: Marabá, no Pará, e Alta Floresta, no Mato Grosso. O principal objetivo dessa etapa foi identificar semelhanças entre os desafios enfrentados pelos agricultores familiares de Novo Repartimento e os daqueles situados nas proximidades desses dois municípios. Ademais, buscou-se, em colaboração com esses atores, identificar os ajustes necessários para que tanto o Currículo de Sustentabilidade da Pecuária quanto o aplicativo Solis sejam úteis e relevantes nesses novos contextos, explorando a possibilidade de adoção do currículo e da ferramenta digital desenvolvidos no âmbito do projeto. 5.1 Contribuições de atores chaves em Marabá - Pará Em Marabá a oficina contou com a participação de representantes da academia, na figura do Instituto Federal do Pará (IFPA), da empresa pública de assistência técnica e extensão rural do Pará EMATER, responsável por prover serviços de orientação técnica a produtores de 21 municípios da região, incluindo a cidade de Novo Repartimento, da Secretaria de Agricultura de Marabá e do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará – Ideflor-bio, organismo estadual responsável pela promoção do desenvolvimento sustentável da Amazônia, por meio da gestão de recursos florestais e da biodiversidade, focando na conservação ambiental e no uso sustentável desses recursos. De forma similar aos participantes da oficina de Novo Repartimento, os participantes foram apresentados ao Projeto Ferramentas Digitais Inclusivas e convidados a analisar a lista de práticas definidas pelos agricultores e a refletir sobre melhoria que fariam o Solis ser mais adaptado às suas realidades. A seguir são apresentados os resultados. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 3 6 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Área Práticas sugeridas pelos atores chaves em Marabá Manejo de pastagens ▪ Implementação de irrigação ▪ Uso de cerca elétrica ▪ Uso de madeira de reflorestamento para cercas. ▪ Adoção de capineiras (ex. capim-açu da EMBRAPA) para manejo de pastagens. ▪ Produção de silagem (modelos de estruturas viáveis à realidade dos produtores). Saúde e bem-estar animal ▪ Manejo sanitário: monitoramento de doenças, vacinação e saúde animal ▪ Diferenciação de manejo para gado de leite e corte Diversificação/Integração ▪ Integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Infraestrutura e Equipamentos ▪ Adoção de sistemas de energia solar no campo. ▪ Reaproveitamento de resíduos para construções. Gestão Ambiental e Conservação ▪ Regularização ambiental para uso de recursos hídricos. ▪ Proteção de nascentes Gestão e Planejamento ▪ Gestão financeira e ciclos de mercado Os participantes também compartilharam sugestões e demandas para apoiar o desenvolvimento sustentável da cadeia da pecuária no Pará: ▪ Desenvolvimento de projetos de pesquisa agropecuária mais aplicados às necessidades dos agricultores; ▪ Estratégias setoriais para sucessão familiar, incentivando o engajamento de jovens; ▪ Ações de fortalecimento do cooperativismo e do associativismo; ▪ Melhoramento genético para raças adaptadas ao clima local; ▪ Superação de dificuldades com fornecedores de insumos (fertilizantes, sementes etc.) e energia; ▪ Fortalecimento da rede de coleta e processamento de sementes certificadas; ▪ Programas como o "Bom Destino", com doação de estacas de madeira apreendida pela polícia federal para cercas e outras construções rurais; ▪ Recursos para ampliação da assistência técnica (ATER) para atender 25.000 produtores estabelecidos na região. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 3 7 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária 5.2 Contribuições de atores chaves em Alta Floresta – Mato Grosso Com o objetivo de identificar as adaptações necessárias para implementar o Currículo e o Solis em territórios com características distintas, foi realizada uma oficina em Alta Floresta, no estado do Mato Grosso. A oficina contou com a participação de representantes do Instituto Ouro Verde (IOV) e do Instituto Centro de Vida (ICV), duas organizações do terceiro setor com um notório histórico na promoção do desenvolvimento sustentável junto a agricultores de pequena escala na região. Também estiveram presentes representantes da empresa privada Campo S/A, que presta serviços de ATER, e um especialista em projetos de assistência técnica, que colabora regularmente com organizações públicas, privadas e do terceiro setor atuantes na região. Representando o poder público, esteve presente o secretário de Agricultura de Alta Floresta. Embora exista pecuária de corte na região de Alta Floresta, a agricultura familiar é predominantemente voltada para a produção de leite, ainda que haja uma tendência de diminuição da produção de leite em favor do gado de corte. Área Práticas sugeridas pelos atores chaves em Alta Floresta Boas práticas ▪ Controle de pragas e uso de caldas Diversificação/Integração ▪ Implementação de sistema agro silvipastoril, que busca integrar a pecuária, o plantio de árvores e outras atividades produtivas, como a coleta de sementes Gestão Ambiental e Conservação ▪ Proteção dos mananciais ▪ Manejo adequado da água ▪ Manejo de resíduos orgânicos e inorgânicos, juntamente com o tratamento de efluentes Gestão e Planejamento ▪ Gestão de fluxo de caixa (com foco na capacitação das mulheres que assumem um papel de liderança no processo de gestão financeira das propriedades) A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 3 8 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Considerações finais Este currículo sistematiza e consolida uma vasta quantidade de aprendizados e conhecimentos técnicos gerados a partir de oficinas de cocriação com produtores, técnicos extensionistas e atores locais em cinco municípios brasileiros, onde a atividade pecuária enfrenta desafios sociais, ambientais e econômicos. Os conhecimentos adquiridos ao longo da execução do projeto Ferramentas Digitais Inclusivas no periodo de janeiro 2023 a novembro de 2024 abrangem diversas áreas da produção agropecuária sustentável. No entanto, é importante destacar que, em um país de dimensões continentais como o Brasil, a diversidade e a heterogeneidade do meio rural exigem cautela ao se fazer generalizações. Em outras palavras, adotar uma solução única para todas as situações é, acima de tudo, um erro técnico, que pode comprometer a eficácia de um processo de desenvolvimento sustentável em alcançar suas metas e objetivos. Assim, as práticas apresentadas aqui — tanto as definidas pelos agricultores, que servirão de guia para as ações de assistência técnica oferecidas pela Solidaridad em Novo Repartimento, Pacajá e Anapu, quanto as sugeridas pelos atores-chave de Novo Repartimento, Marabá e Alta Floresta — devem ser consideradas como práticas relevantes para seus respectivos territórios, e não como um conjunto definitivo de soluções sustentáveis aplicáveis a todas as regiões brasileiras com atividade pecuária. Esse cenário reforça o propósito do Solis, uma vez que a ideia central, originada pelos próprios produtores durante o projeto, é facilitar a criação de conteúdos técnicos adaptados ao contexto local, com linguagem e formato acessíveis. A proposta é que esses conteúdos sejam produzidos pelos próprios agentes locais, mas também inclui a contribuição de especialistas externos, que podem agregar conhecimentos especializados em áreas de maior demanda por informação e tecnologia produtiva nas comunidades de produtores. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 3 9 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Anexo I: Fichas de aprendizagem para o território de Novo Repartimento, Pacajá e Anapu 1. Boas práticas na pecuária TEMA GERADOR: BOAS PRÁTICAS NA PECUÁRIA Adotar boas práticas de produção proporciona aliar maior eficiência e lucratividade na atividade agropecuária com a conservação dos recursos naturais e melhor gestão da propriedade. O Guia de Indicadores da Pecuária Sustentável (GIPS) é uma das ferramentas utilizadas na avaliação das propriedades na utilização de boas práticas, apresentando um conjunto de indicadores nas áreas de gestão econômica e financeira, manejo de pastagens, suplementação alimentar, identificação animal e rastreamento, manejo reprodutivo, controle sanitário, instalações rurais e gestão ambiental. BENEFÍCIOS: ATIVIDADE DE ENSINO-APRENDIZAGM: DIA DE CAMPO Local: Propriedade rural ou unidade demonstrativa Materiais: flip chart, pincel atômico, cópias da lista de verificação do GIPS Tempo de duração: 6 horas Método: A aprendizagem coletiva a partir da vivência prática é o principal objetivo do dia de campo, proporcionando o encontro do conhecimento técnico com os saberes construídos localmente. A metodologia se diferencia de uma simples visita de campo por ter um objetivo de aprendizagem, que pode ser relacionado a um tema específico ou, como na atividade apresentada, proporcionar uma visão mais ampla e integrada da propriedade, envolvendo aspectos sociais, ambientais e econômicos. Durante a atividade, de caráter essencialmente prático, o papel do técnico é estimular o debate de experiências relevantes observadas e ajudar na organização dos aprendizados. A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 4 0 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária Como: O planejamento realizado com antecedência é essencial para o sucesso da atividade, a partir da cuidadosa escolha da propriedade onde será realizado o dia de campo, privilegiando áreas em que a famílias estejam dispostas a mostrar seu trabalho e que tenham experiências práticas relevantes em relação aos objetivos da atividade. A área deve ter também localização estratégica e uma estrutura mínima para receber as pessoas, com um espaço coberto, cadeiras e local para preparo da alimentação. O trajeto que o grupo irá realizar durante o dia de campo deve ser definido com antecedência, a partir da escolha de pontos de parada estratégicos para observação de aspectos relevantes do trabalho desenvolvido pela família. O dia de campo é dividido em três partes: a primeira é dedicada às boas vindas, organização dos trabalhos e apresentação da lista de verificação do Guia de Indicadores de Pecuária Sustentável (GIPS). Os participantes são divididos em grupos, cada um ficando responsável pela aplicação de uma área temática que compõe a lista de verificação do GIPS, que deve ser impressa e disponibilizada para os grupos, A segunda etapa é a visita em si, com a condução do grupo sob responsabilidade das famílias anfitriãs. Na medida em que vão percorrendo a propriedade, os grupos conversam, tiram dúvidas e anotam suas observações na lista de verificação. A etapa final da atividade é dedicada à apresentação dos grupos e debate com os demais participantes, com o técnico fazendo suas contribuições e anotando no flip-chart os principais aprendizados e demandas por outras capacitações e trocas de experiências. Perguntas de estímulo: ▪ Quais são os principais desafios enfrentados no trabalho com a pecuária? ▪ Quais são as práticas que estão dando certo? Porque? ▪ Quais são os resultados e as melhorias que essa pratica trouxe? ▪ Como vocês avaliam seu trabalho com a pecuária? ▪ O que pode ser feito ou está faltando para melhorar mais a atividade? Bora aprender mais? EMBRAPA. Boas Práticas Agropecuárias - Bovinos de Corte: manual orientador. Campo Grande, 2022, 68p. https://www.gips.org.br/ Canal GTPS - @canalgtps9572 https://www.gips.org.br/ A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 4 1 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária 2. Manejo de solos tropicais TEMA GERADOR: MANEJO DE SOLOS TROPICAIS A decomposição da matéria orgânica pelos organismos que vivem no solo é o processo que impulsiona os sistemas de produção agroecológicos. A manutenção da cobertura do solo, associada a alta produção de biomassa para utilização como adubação verde, são práticas que trazem eficiência e sustentabilidade aos sistemas produtivos. Na pecuária, o pastejo rotacionado, a consorciação dos pastos com leguminosas fixadoras de nitrogênio, a fertirrigação das forrageiras com esterco animal e a utilização de árvores nas pastagens na forma de sistemas de Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF), são exemplos de práticas que ativam a biologia do solo e promovem a ciclagem de nutrientes, aumentando a produtividade e a longevidade das pastagens. BENEFÍCIOS: ATIVIDADE DE ENSINO-APRENDIZAGM: PRÁTICA DE ESTIMULAÇÃO DEDUTIVA Local: Campo Materiais: enxada, enxadeco, facão, barbante, regador, flip-chart, pincel atômico Tempo de duração: 1,5 horas Método: As Práticas de Estimulação Dedutiva são utilizadas em cursos, oficinas e dias de campo como desafio na resolução de situações-problema e na experimentação de novas possibilidades ou oportunidades de intervenção em uma determinada realidade a partir do teste de pressupostos gerais em situações específicas. A atividade consiste em instalar e avaliar pequenos experimentos práticos que simulam situações reais, cabendo ao técnico conduzir sua instalação, estimular a observação, moderar o debate e contribuir na sistematização das ideias, fazendo correlações dos resultados observados com o trabalho dos participantes em suas propriedades. Como: O desenvolvimento da atividade parte do debate em torno da importância e papel da matéria orgânica no manejo de solos em sistemas de produção agropecuários. A primeira etapa do experimento é a escolha de uma área levemente inclinada e com terra descoberta. Em seguida devem ser medidas e delimitadas quatro parcelas de 1x1m (1m2), dispostas lado a lado, A primeira A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 4 2 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária parcela deve ficar com a terra totalmente descoberta; a segunda deve ser coberta com matéria orgânica; na terceira o solo deve ser revirado com enxadeco e depois destorroado, simulando a mecanização agrícola; e a quarta deve ser coberta com galhos e folhas secas e depois colocado fogo, simulando o roçado de corte e queima. A turma deve ser estimulada com perguntas: “Se chover, em qual parcela o solo vai absorver mais água?”, “Em qual situação vai escorrer mais rápido?”. Com um regador é simulada uma chuva sobre as parcelas, molhando-as uniformemente, uma de cada vez, até a água começar a escorrer para fora da área delimitada. sendo registrada a quantidade de água gasta. Após observarem os efeitos da “chuva” em cada situação, a turma é estimulada a avaliar os resultados do experimento, discutindo porque o solo com matéria orgânica absorveu mais água, porque nas parcelas com solo descoberto e queimado a água escorreu mais rápido (observando também a cor da água), e porque na parcela com solo mecanizado a água ficou empossada. Na medida em que o debate acontece, o técnico anota as principais ideias no flip-chart, contribuindo com os conceitos de erosão e assoreamento, e discutindo os efeitos do fogo e da mecanização na degradação e compactação dos solos. Perguntas de estímulo: ▪ Que é matéria orgânica? Como ela é formada? ▪ Como os nutrientes do solo ficam disponíveis para as plantas? ▪ Porque o roçado queimado não produz mais depois de três ou quatro anos? ▪ Quais as limitações e riscos da utilização da mecanização agrícola? ▪ O que podemos fazer para manter o solo fértil e rico em matéria orgânica? Bora aprender mais? RODRIGUES, F.Q. et al. Caderno de Atividades do Educador Ambiental, SEMA, Rio Branco, 2009, 103p. PRIMAVESI, A. Manejo Ecológico do Solo: a agricultura em regiões tropicais. 2017, 517p. www.agrofloresta.net http://www.agrofloresta.net/ A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 4 3 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária 3. Leguminosas forrageiras TEMA GERADOR: LEGUMINOSAS FORRAGEIRAS Diversas espécies leguminosas, como o feijão guandú e a ingazeira, são utilizadas como adubos verdes na agricultura, fornecendo matéria orgânica para o solo. Em simbiose com bactérias, elas possuem a capacidade de fixar o nitrogênio do ar em sua biomassa vegetal, podendo ser cultivadas em consórcio, sucessão ou rotação de culturas. Na pecuária, leguminosas como a gliricídia o amendoim forrageiro e a moringa são também utilizados como fonte de proteína na alimentação animal, podendo ser consorciados com a pastagem ou cultivados como capineiras e fornecidos no cocho. BENEFÍCIOS: ATIVIDADE DE ENSINO-APRENDIZAGM: OFICINA DE COCRIAÇÃO Local: Sala Materiais: computadores ou celulares com conexão na internet, flip-chart, pincel atômico Tempo de duração: 6 horas Método: As Oficinas de Cocriação são atividades pedagógicas voltadas à produção de ideias e desenho de soluções para resolução de problemas ou desafios enfrentados em um determinado contexto ou situação. Com base em temas geradores construídos coletivamente, o processo de cocriação pode ser dividido em quatro etapas principais: i . (Re)significar conceitos e práticas a partir da realidade local; ii. configurar o desafio, propondo formas de resolver o problema ou potencializar uma oportunidade; iii. Criar protótipo ou maquete da ideia e desenhar projetos de implementação; e iv. Experimentação prática e monitoramento participativo de indicadores de resultado. Como: Oficinas, como o nome já indica, são espaços de construção coletiva de ideias e propostas de intervenção em uma determinada realidade. Assim, o papel do técnico é criar situações de aprendizagem e estimular o diálogo na busca por soluções e inovações na resolução de um problema ou desafio. A atividade tem início com a exposição da situação-problema, no caso a baixa oferta de proteína na alimentação dos animais, seguido de uma rodada de verificação dos conhecimentos e experiências que os produtores já possuem em relação ao uso de espécies leguminosas nas pastagens e seus benefícios na nutrição animal e na adubação verde do solo, A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 4 4 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária proporcionando ganhos em produtividade e rentabilidade. A etapa seguinte consiste no estabelecimento do desafio a ser enfrentado, seguido de um exercício de pesquisa de dados e informações em fontes bibliográficas de referência sobre o tema, selecionando espécies que possuam alto potencial de desenvolvimento nas condições locais. A partir das informações pesquisadas e da troca de experiências entre os participantes, os produtores partem para a etapa de desenho de projetos, definindo os objetivos de experimentação no uso de leguminosas, por exemplo testando diferentes métodos de plantio, arranjo ou espaçamento, e, a partir daí, estabelecer a metodologia de trabalho e os materiais, equipamentos e insumos necessários. A experimentação requer alguns cuidados, principalmente em relação ao tamanho da intervenção, que deve ser feita em uma área inicialmente pequena; ter sempre uma testemunha ou parcela de comparação; além de monitorar cuidadosamente e registrar os indicadores de resultado. Perguntas de estímulo: ▪ Quais são as plantas leguminosas? Que benefícios elas trazem? ▪ Quais leguminosas são adaptadas à nossa região? ▪ Como posso consorciar as leguminosas na pastagem? ▪ As leguminosas podem ser utilizadas na suplementação no cocho? ▪ Quanto posso ganhar em produtividade com o uso de leguminosas? Bora aprender mais? Amendoim Forrageiro para Consorciação de Pastagens e Sistemas Intensivos de Produção. youtube.com/watch?v=L8r9WzNGvGU https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/229323/1/27243.pdf https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/229323/1/27243.pdf https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/229323/1/27243.pdf https://www.youtube.com/watch?v=L8r9WzNGvGU https://www.youtube.com/watch?v=L8r9WzNGvGU https://www.youtube.com/watch?v=L8r9WzNGvGU A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 4 5 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária 4. SILAGEM TEMA GERADOR: LEGUMINOSAS FORRAGEIRAS A suplementação alimentar do rebanho é essencial para a viabilidade da atividade pecuária, proporcionando maior produtividade e ganho de peso dos animais, diminuindo o tempo de abate. Além do sal mineral, a suplementação pode ser feita no cocho através do fornecimento de rações comerciais ou de biomassa de capineiras formadas por gramíneas e leguminosas. Através da fermentação aeróbica da forragem, a técnica da silagem permite armazenar o alimento produzido no período das chuvas para fornecimento aos animais no período seco, caracterizado pela maior escassez de forragem nas pastagens. BENEFÍCIOS: ATIVIDADE DE ENSINO-APRENDIZAGM: PRÁTICA DE CAMPO Local: Campo Materiais: madeira, serrote, martelo, pregos, lona, triturador, flip-chart, pincel atômico Tempo de duração: 4 horas Método: Como atividade pedagógica, a Prática de Campo tem como objetivo criar situações de aprendizagem a partir das iterações e trocas de informações e experiências entre técnicos e produtores na realização de uma atividade prática em um determinado tema de interesse do grupo, O “fazer junto” proporciona estabelecer relações de respeito e confiança, de trabalho cooperativo e de corresponsabilização pelo processo de aprendizagem. O trabalho do técnico está na proposição e organização da atividade a partir de demandas reais, coordenando o planejamento participativo e estimulando a integração e a participação ativa das pessoas em todas as suas etapas. Como: A atividade pedagógica propõe a construção participativa de um silo tipo “rapadura”, tecnologia de produção adaptada à agricultura familiar, simples e de baixo custo, possibilitando armazenar forragem para utilização na suplementação alimentar dos animais durante os meses mais secos do ano. Um cuidadoso processo de planejamento é chave para o sucesso da atividade, proporcionando prever com antecedência o local de realização, os materiais e equipamentos necessários, e as estratégias de divulgação, mobilização e logística dos participantes. A atividade prática com o grupo começa com um nivelamento do objetivo do trabalho coletivo, realizado em forma de mutirão, A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 4 6 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária também conhecido como adjunto, puxirum, ajuri, entre outros nomes populares, e debate sobre a organização do trabalho a partir das etapas necessárias para sua realização. A turma é dividida em pelo menos três grupos, cada um deles ficando responsável pela realização de uma das etapas de construção do silo rapadura: i. caixa de fermentação; ii. colheita da forragem; iii. transporte da forragem até o silo. Outros grupos ou pessoas podem ficar responsáveis por atividades complementares, como por exemplo a filmagem e registro dos trabalhos. O enchimento da caixa com a forragem triturada e a compactação do material através do pisoteio ficam a cargo de todo o grupo, que pode ir se revezando na sua realização. Após a conclusão da parte prática, o técnico conduz um processo de avaliação participativa da atividade e sistematização dos aprendizados, fazendo também uma contribuição conceitual sobre o processo de silagem e registrando as ideias principais no flip-chart. Perguntas de estímulo: ▪ Quais os benefícios da silagem? ▪ Que espécies adaptadas a nossa região posso utilizar para silagem? ▪ Como ocorre o processo de fermentação? ▪ Por quanto tempo posso armazenar o material ensilado? ▪ Quanto posso ganhar em produtividade com o uso da silagem? Bora aprender mais? RÊGO, A.C. Desafios e perspectivas para a produção de silagens na Amazônia. Belém, 25p. youtube.com/watch?v=zTUbO2UjJlM https://www.youtube.com/watch?v=zTUbO2UjJlM https://www.youtube.com/watch?v=zTUbO2UjJlM https://www.youtube.com/watch?v=zTUbO2UjJlM A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 4 7 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária 5. Sistemas silvipastoris TEMA GERADOR: SISTEMAS SILVIPASTORIS Incorporar árvores nos sistemas de produção agropecuários integra a estratégia de diversificação e geração de renda na agricultura familiar, como ocorre nos Sistemas Agroflorestais (SAFs) através do consórcio de árvores com cultivos agrícolas. Na atividade pecuária, árvores de múltiplos usos são utilizadas na composição de sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), também chamados de Sistemas Silvipastoris, proporcionando, além do conforto e bem estar animal, a produção de alimento para o gado, madeira, frutos, sementes, látex, óleos e essências florestais com alto potencial de mercado. BENEFÍCIOS: ATIVIDADE DE ENSINO-APRENDIZAGM: INTERCÂMBIO Local: Campo Materiais: flip-chart, pincel atômico Tempo de duração: variável Método: Trocar experiências é o principal objetivo do intercâmbio, proporcionando interações e aprendizados entre produtores e técnicos extensionistas. A atividade se baseia na metodologia “de agricultor para agricultor”, sendo utilizada quando se pretende dar visibilidade a uma experiência exitosa, funcionando não apenas como metodologia de capacitação, mas como estratégia de estímulo e engajamento para a ação solidária e cooperativa. Os intercâmbios podem ser mais rápidos e focados em um assunto ou prática específica, mas também podem durar vários dias, como ocorre nas Caravanas da Agroecologia, ampliando a vivência coletiva e as trocas de saberes. Como: O intercâmbio em áreas de produtores rurais é outro exemplo de atividade pedagógica que precisa ser pensada com bastante antecedência, principalmente na articulação com a família ou comunidade que irá receber os visitantes, ajudando a prepará-los para a atividade. As etapas e trajetos a serem percorridos são definidos em função dos objetivos da visita, sendo estabelecidas estações ou pontos de parada estratégicos para debate a respeito de práticas, soluções e inovações observadas. A atividade tem início com as apresentações e boas vindas dos anfitriões, que fazem a contextualização inicial sobre o território, a trajetória e os trabalhos realizados, e em seguida é A g r o e c o l o g ic al T R A N S IT IO N S 4 8 Currículo de Sustentabilidade na Cadeia da Pecuária apresentado o roteiro da visita. O protagonismo na condução da atividade é da família ou produtor que está mostrando seu trabalho, cabendo ao técnico manter o grupo coeso, evitando dispersões, e estimular a participação ativa de todos, com perguntas, observações e contribuições conceituais. Visitar a experiência com Sistema Silvipastoril envolve não apenas conhecer as técnicas de implantação e manejo adotadas e os arranjos e espécies de árvores utilizadas, mas, fundamentalmente, entender o processo de mudança de concepção em relação à atividade pecuária, se estendendo à propriedade como um todo, aonde a árvore passa de problema ou obstáculo à componente do sistema de produção. No final da atividade é reservado um momento para a avaliação dos aprendizados, enfatizando os benefícios sociais, econômicos e ambientais observados, incluindo resultados financeiros e de produtividade em comparação ao modelo de sistema produtivo convencional praticado anteriormente pela família. Perguntas de estímulo: ▪ Quais os benefícios proporcionados pelo sistema ILPF?